A história detalhada do fim da monarquia brasileira
Mathias MeyerCompartilhar
"As 11 horas da noite tive conhecimento de que se estava preparando alguma cousa."
Em 15 de novembro de 1889, os republicanos e os oficiais do exército aplicaram um golpe de Estado e instituíram a república. Dom Pedro II se conformou com a situação e rejeitou todas as sugestões apresentadas pelos políticos e líderes militares de sufocar a revolta. O imperador e sua família foram enviados para o exílio em 17 de novembro.
No dia 10 de janeiro de 1890, logo depois da Proclamação da República, o príncipe Dom Pedro Augusto Bragança (1866 - 1934), neto de Dom Pedro II e sobrinho da Princesa Isabel, escreve uma carta incrível de 13 páginas - em um papel de luto pela morte avó Teresa Cristina - para o Comendador Oliveira Catramby. Segue a transcrição completa : são inúmeros detalhes interessantes e inéditos sobre esse momento fundamental da História do Brasil. Boa leitura!
Folha 01
Lisboa, 10 de janeiro de 1890. Reservada.
Amigo Catramby,
As suas lágrimas no dia em que se despediu de mim em minha casa, eram um presságio. Quanta cousa, quanta tristeza, e fatais acontecimentos, depois desta data. Imagino como não deva você estar. Bem sei que é muito amigo e partilha as minhas mágoas. No dia 14 de novembro a noite estive com seu pai e outros amigos em minha casa. Nesta noite por mero gracejo atei ao braço do Taunay uma fita federalista que pertencera a um [mashorquedro] de Rosas. Foi também um agoureiro, e eu não sou supersticioso. As 11 horas da noite tive conhecimento de que se estava preparando alguma cousa. Dormi tranqüilo, e com a consciência limpa.

Folha 02
No dia 15 de manhã o Francisco [Nigner] anuncia-me a revolução no campo da Aclamação. E os jornais do dia, já sabendo de tudo, pouco disseram. Parti logo a pé com o Boudet para a casa de Maya Monteiro e lá soube de tudo minuciosamente e desde então senti o que era esta revolução: orgia, domínio, e ganância, bebedeira e afinal ditadura. E tudo isso em nome da liberdade. Voltei novamente para casa a pé, com o Maya Monteiro, lá encontrei o Maya já já e seu pai, conferenciamos longamente estavam insultando os criados do Paço que passavam no Campo. O mesmo em ponto maior passou durante a grande revolução francesa, que sempre serviu de modelo naquela em que ela é má, a todos estes republicanos que querem regenerar a pátria praticando violências e iludindo (sic!) a Europa com continuados telegramas otimistas assinados por Rui Barbosa aquele que pregava o governo inglês, o governo modelo. Benjamim Constant não me espanta. Os positivistas admitem o absurdo de que a ditadura é o supras-sumo do liberalismo. Desconfio de que todos estão com o cérebro a arder e que a epidemia [consciente] na Europa tomou uma feição divina na Terra de

Folha 03
Santa Cruz. Continuemos porém a nossa discrição. Depois de uma longa discussão segui. Após o jantar e a noitinha com o [Bezzi] em carro particular para o Paço da cidade onde se achara o Imperador, Imperatriz e Conde d’Eu. A cidade calma, indiferente, mas com esta indiferença que eu observo há tempos, indício certo de um período tempestuoso. Entre parênteses lembrar-lhe-ei as nossas boas conversas no banco de seu jardim. Lembra-se de que lhe disse, da predição da próxima vinda da República, e você não queira acreditar; do plano infame dos militares querendo tomar-me em refém. Tudo isto não se realizou e sob uma forma ainda mais completa e somente indigna? Você sempre me dizia tenha toda confiança no que diz o Dom Pedro, e este desta vez ainda acertou, e acertou demais Há muito tempo notara, e você bem o sabia, o estado de fraqueza

Folha 04
e abandono em que tinha caído a monarquia; os abusos que se praticaram sob a capa do soberano, e muitas outras cousitas mais. O exército nas patentes inferiores se tornara em extremo indisciplinado e o marechal em chefe tinha zero de influência... Passemos adiante. A 15 dormi bem e lá no Paço encontrei o Conselho do Estado todo já muito desanimado e com tendências para a decomposição. O Imperador aludido completamente e calmo de fazer desesperar. A Imperatriz, a minha boa, querida com que isto também previa, triste, preocupada e já penando com aquele mal que lhe sobrou a nada. Foi o primeiro período das minhas torturas morais.

Folha 04/V
O que fez o senado, o que fez a Câmara. Porque não se reuniram em seção permanente. O que fazia o ministério que declara saber do fato com 3 dias de antecedência e não preveniu a Família Imperial. O que fez M. Maya que se entrega as 9 horas da manhã de 15 ao Imperador, telegrama de censo sabido a meia noite. Quem foi o culpado. Com certeza ninguém, e eu ainda menos. No dia 16 de manhã ainda estivemos em circunstâncias de fazer uma retirada, mas o Imperador não o quis e tudo ficou decidido em breve ficamos cercados com soldados a darem tiros do acaso, a prenderem os pratos de doces que

Folha 05
vinham da cozinha e com-prazidos de querem matar a algum princípio para ver correr sangue azul. E neste momento estive calmo e bem calmo, sofrendo muito interiormente. Incomunicáveis, recebemos as 3 horas da tarde o mandado de despejo de um qualquer general [Bom] com um estado maior mais ou menos hesitante e cambaleante Tudo isto muito digno, descente e próprio de um país civilizado. Felizmente a cusparada partiu só de um grupo e de poucas bocas. O Imperador dá resposta digna redigida pelo Barão de Loreto. O pseudo governo promete garantir ainda, comodidades toda família Imperial.

Folha 06
O Conde d’ Eu apressa-se em escrever ao Governo expondo a penúria da família. Eu não o faria, ele não procedeu com acerto. Também não escrevi carta de despedida, porque saí pela força, contra a minha vontade e não acordo de um paquete como qualquer mandados que parte para livre e só despedidas cínicas. Enfim, cada um pensa como quer. No dia 16 a noite depois de algumas visitas mais ou menos desconhecidas e suspeitas, deitei-me. As 2 horas da madrugada de 17 acordam-me e anunciam a partida e imediata. Assim o quer o Coronel Mallet a [prever-te] de [que] haveria sangue se o embarque fosse de dia, e por estarem armados com metralhadoras as escoltas da marinha, militar e politécnica. Desconfiei logo de que era mentira!!

Folha 07
E tocar despachar essas canastras. As 3 horas já estávamos em um carro cercado de tropa e capitaneado pelo nobre Mallet, e embarcamos em uma lancha a vapor sempre com oficiais de carabina escalada e todos republicanos e todos mal vestidos, e junto com eles muito soldado para dar ao todo um cunho bem espontâneo, bem militar e sem vislumbre de violência, apenas para garantir as existências em perigo. Que Tartufos! Só com veste ficou disse baixinho a seu ouvido: “A monarquia vinda tem muita força Príncipe”. Terá sido fuzilado? - Não se espanta sei que o filho do Aguiar de Andrada, menino de 16 anos, estava finado no cárcere porque não era aderente nesse [adesivo]. Pouco depois entramos na Parna-hyba às escuras e logo fui para a Praça d’Armas e logo

Folha 08
muitos oficiais declarando serem muito amigos e logo muito Imperial Fuzileiro Naval e ordem para não subir ao passadiço e assim rompeu a alvorada. Pelas 9 horas e meia chegaram meus primos e Maria Scoll, e depois o fiel Bandet a 14. Largamos, digo levantamos ferro ao dizer o Comandante Pal-meira muito seco, muito [?] e queixando se também do abandono em que tinham deixado a sua classe. O imediato co-piloto serrano também muito amável e quisera em ver na Europa e unirem todos os oficiais, todos muito dedicados e todos muito republicanos oferecendo-se para darem as nossas instruções e últimos desejos?Afinal e a noite já seguidos pelo Alagoas, chegamos a

Folha 09
a Enseada de [Abracuí]. Aí a as escuras fomos levados em escalas, e a pobre Imperatriz gritando muito e carregada, içada em uma cadeira. Tudo isso muito confortável e muito amável. Nesta noite mesmo e já com o Riachuelo saímos em direção a Fernando de Noronha. O Riachuelo sempre a andar de-vagar a mandar parar. Um desespero, um delinque, um desaforo. Comecei então a desesperar e depois orei coisas que no particular em um extremo e fiquei convencido de que os planos do governo a respeito da Família Imperial eram os mais indignos. Começou o meu período agudo de tortura com alternativa e este durou até eu chegar a Lisboa a 7 de Dezembro de 1891. Dizem uns que

Folha 10
estive doido e em febre e neste caso não tinha responsabilidade de que fiz, e não ouvi o que creio ter ouvido. Os oficiais Rangel Americo e Magalhães Castro, delegado do [?] asseguram que foi medo só e que só estive de joelhos. Quando no entanto também melhor lhe sido, e o direi uma vez a Magalhães Castro fora de meu [?] . Isto eles não contam. Concordamos que meu medo então não estava doido e sem febre, e por conseguinte ouvi durante dias, a ouvi da [?] e então todos eles são uns infames, covardes, crimi-nosos e que não ousaram cumprir ordens recebidas. O Riachuelo depois de um dia inteiro de sinais, paradas e seis voltas em torno do Alagoas. Manda dizer: Hoje Resolução e desapareceu e nós a andar com uma fúria suspeita e

Folha 11
e horrível. Que tormento e que martírio. Você dorme noites inteiras e a dor que tinha vindo a minha hora [?] e receando que lhe fizessem mal. Isto a eles não contaram e eu hei de continuar a passar por tudo ou medroso e assim o desejara também o Conde d’Eu e os Maltar Maior. Afinal em Lisboa descansei A 17 parti para Madrid, [?] e a 28 Recebo a noticia da morte da Imperatriz que morreu falando naquele e no mesmo tom em que falara eu o decido a bordo do Alagoas, onde empreguei 2 [veias]: ternura ou ameaças Mais esta morte a recebi sobre o tal desgoverno. Voltamos para Lisboa, a 8 foram os funerais e hoje partimos

Folha 12
para [Paris] e Cannes onde passamos o Inverno. Levara-me para Cannes, França, Hotel Beau Le’ Jour e endereço Mª Le Comte de Klein – Alm. por causa das duvidas Bem desejaria vê-lo e veja se realiza o seu intento de viajar a Europa É de esperar que eu também o possa ver outra vez no Brasil, quando se levantar o indigno decreto de banimento, ou quando as cousas mudarem – outra vez, como é certo, a menos que não sofra primeiro toda a família processo prático para melhor segurança da nascente república. E que representa a

Folha 13
opinião nacional em peso Mande se dizer também se acredita que quem lhe escreve está doido. Estou certíssimo do contrário e lembre-se sempre de seu muito amigo o Dom Pedro Augusto Bragança.
Ps. Que fim tomou o França Junior nunca mais o vi. Ele que apareça.

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