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Chico Mendes conta sua luta em duas cartas inéditas

Postado por Mathias Meyer em

Em 1978, João e Renata, dois estudantes de jornalismo, decidem viajar pela Amazônia. Lá eles encontram o ativista Chico Mendes, com quem vão fazer amizade e manter correspondência. As cartas apresentam nuances de suas ações e as dificuldades para defender a floresta amazônica e populações nativas. 

Quarenta anos depois desse encontro marcante e trinta anos depois de assassinato de Chico Mendes, João fez contato com a coleção Glórias   

“As duas cartas são para mim. Uma foi entregue manualmente e a outra veio pelo Correio.

 No começo de 1978 larguei emprego de repórter dos Diários Associados e fui fazer uma viagem pela Amazônia com a fotógrafa Renata Flazoni. Conhecía um padre italiano, o padre Torino, que morava em Xapuri e vinha para SP coletar donativos.

Quando chegamos em Xapuri, conhecemos o padre Claúdio Avalone e o padre Destro. No dia seguinte eles nos apresentaram a Chico Mendes que nos mostrou seringais e ficou nosso amigo. Durante uns 10 dias mergulhamos na vida de Xapuri. Chico Mendes nos levou a seringais, fazendas.

Lembro que no mundo dele se ouvia muito Geraldo Vandré. Também conheci jornalistas de "O Varadouro", que era feito pela turma do Chico e me tornei um representante do jornal em SP. Durante anos tivemos notícia dele, minha ex-mulher o encontrou em encontros que aconteceram no Estado de São Paulo.

Morreu 10 anos depois que o vimos, mas senti muito sim porque o Padre Cláudio Avalloni que era seu amigo se hospedava em nossa casa em SP e nos dava notícias. Esse padre apárece na mini-série da Globo.” 

Renata Falzoni relata também seu encontro com Chico Mendes, em um artigo publicado no seu blogue : https://bikeelegal.com/paixao-pela-amazonia

“Pois a verdade não pode ser vencida” (primeira carta)

Xapuri

25 de abril de 1978

Caro Amigo João,
 
Espero que estas linhas vá-te encontrar gosando perfeita felicidade juntamente com tua digna esposa Renata.

Olha João as coisas por aqui, vai tudo naquela base, a poucos dias fui quase processado, por o Juiz de direito desta comarca ficou bravo comigo por causa de um pronunciamento que fiz criticando o não foncionamento da justiça em nosso municipio. Ainda fui intimado a comparecer no gabinete dele masas coisas voltaram ao normal. Poisa verdade não pode ser vencida.

Olha pesso-te que mande algumas noticias dai. Pois eu estou aqui completamente desatualizado. Manda-me diser como vai a situação politica dai.

Olha diz pra Renata que naquela hora que vocês embarcaram o delegado de policia ficou invocado porque ela bateu uma foto nossa e ele estava encostado e me perguntou quem eram vocês eu respondi são meus amigos que vieram-me visitar, ele ainda falou em mandar vocês descerem do onibus, não fosse minha interferência.

Aqui finalizo tudo de bom para vocês. Bons sucessos em vossos trabalhos. São meus votos. [?] Abraços

Vereador Francisco Mendes filho

“Dias depois ele me jurava 6 tiros na cabeça” (segunda carta)

Xapuri, em 3 - 02 - 80

Presado amigo João, e Renata

Olhem eu não sei se vocês receberam uma carta que escrevi para vocês a mas de um ano e que nunca obtive resposta. Hoje felizmente encontrei o Roberto e a Marineide teus amigos, foi um grande prazer.

Olha João as coisas por aqui estão mas movimentadas, os movimentos sindicais estão cada vez mas ganhando espaço, o movimento dos trabalhadores esta muito melhor, algumas vitorias ja conseguimos aqui, este ano tudo indica que vai ser muito movimentado, alguns conflitos em algumas areas possivelmente poderão ocorrer mas esperamos que os trabalhadores estejam bem preparados para defender suas terras e assim que o acreano esta começando a criar vergonha, e ja começa aparecer no mundo de noticias.

Olha os politicos aqui uns verdadeiros parasitos que só [?] seus interesses pessoais. Este ano passado meus proprios companheiros de oposição na minha bancada denunciaram de mim e me acusaram de subversivo e que eu estaria mobilisando os trabalhadores para uma luta armada, jà pensou que oposição esta agora com a disfarçada abertura mas estamos juntamente com os poucos autenticos organisando a frente popular, uma organização criada dentro do pmdb. O [?] do mdb, esta organização tem como objetivo [?} em suas fileiras somente aqueles que se comprometem com as lutas populares.

Eu tenho enfrentado serios problemas com a policia federal a poucos meses fui submetido a varias horas de interrogatorio mas enquanto isso a luta prosegue estou fazendo reuniões mensalmente com os trabalhadores rurais, o Claudio esta sempre aom eu lado. Agora nos contamos com grande apoio de companheiros de Rio Branco recem chegados do Sul.

Olha eu teria muitas coisas para te falar mas o tempo é pouco estou indo para uma reunião no interior com o Roberto e a Marines. eles te contarão melhor como esta sendo a movimentação aqui.

Olha me manda teu endereço dai pois eu que te te mandar alguns jornais que falam da nossa caminhada aqui. Companheiro esperamos sua vinda aqui qualquer tempo precisamos de pessoas assim para nos ajudar em alguma coisa.

Olha naquele dia em que vocês embarcaram no onibus para viajarem o delegado chegou ao meu lado e perguntou quem são esses caras ?... eu respondi são estudantes meus amigos, ele então falou assim, eu devia prendeles agora mesmo, nesta hora a Renata bateu uma foto ele estava ao meu lado. Dias depois ele me jurava 6 tiros na cabeça até que a gente conseguiu um baixo assinado com centenas de assinaturas contra ele, então transferiram ele para Rio Branco.

Camaradas, aqui finaliso desejando tudo de bom para vocês

Uma abraço socialistado camarada

Vereador Francisco Mendes

Chico Mendes foi pioneiro na defesa da Amazônia, do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável

De origem social modesta, Chico Mendes (1944 – 1988) era filho de lavradores que trabalhavam na produção de látex, no Acre. Aprendeu a ler, fato excepcional nessa região, e começou a militar contra a construção da estrada transamazônica, barragens, desmatamento e introdução de gado, ainda na década de 1970. Essas práticas resultavam em perseguição às tribos indígenas e traziam consequências catastróficas para o ecossistema da Amazônia.

Em sua vida de ativista, Mendes participou da fundação do Conselho Nacional dos Seringeiros. Além disso, em 1987, ele viajaria para os Estados Unidos para se encontrar com membros do Banco Mundial; propôs que se parasse a construção de auto-estradas e que se criasse reservas naturais para que a flora da floresta amazônica e as tribos ameríndias fossem protegidas. No mesmo ano, recebeu o prêmio Global 500, da Organização das Nações Unidas e ganhou também o Prêmio da Sociedade Mundial Melhor, criado por Ted Turner, da CNN.

Assim como outros ativistas brasileiros – a exemplo de Wilson Pinheiro, morto em 1980 –, Chico Mendes foi assassinado em 22 de Dezembro 1988, em Xapuri (Acre). Em 1990, os proprietários de terras Darcy e Darly Alves da Silva foram condenados pelo assassinato e sentenciados a dezenove anos de prisão.

Após sua morte, vários milhões de hectares de floresta amazônica foram declarados "reservas de extração" no Brasil, no Peru e na Bolívia. Inspirou o Programa Man and Biosphere, da UNESCO e a GREENPEACE, cujo membro Paul McCartney prestou homenagem a ele em seu álbum Flowers in the Dirt, com a música How Many People, escrita em 1989.

Trinta anos depois, a filha de Chico Mendes tenta retomar a luta do pai. Elenira tem trinta e quatro anos e estudou administração e gestão de recursos naturais. Ela denuncia que nas reservas extrativistas, criadas pelo pai, os habitantes ainda têm dificuldade em viver com dignidade e que: “aqueles que, na época, destruíram a floresta, continuam a fazê-lo.”

Para informações mais detalhadas sobre o ativista, veja esse documentário sobre sua vida : https://www.youtube.com/watch?v=JoTHmdqz6lw

 


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